É festa!

Farra de cachês: Carnaval 2026 consome dezenas de milhões nos municípios de Aracati, Aquiraz e Paracuru

Levantamento do TCE-CE revela que gastos com shows superam em diversas vezes o orçamento anual de pastas essenciais e fiscalização em municípios cearenses

Os gastos públicos com o Carnaval 2026 nos municípios cearenses já atingiram a casa das dezenas de milhões de reais, acendendo um alerta sobre a gestão de recursos no estado. Dados do portal Carnaval Transparente 2026, mantido pelo Tribunal de Contas do Estado do Ceará (TCE-CE), revelam uma concentração massiva de verbas para a contratação de atrações artísticas de renome nacional.

No topo da lista de investimentos, o município de Paracuru destinou R$ 6,4 milhões exclusivamente para shows musicais. No “line-up” de gastos, destacam-se nomes como Wesley Safadão, com o maior cachê (R$ 1,3 milhão), seguido por Natanzinho Lima (R$ 850 mil) e Pedro Sampaio (R$ 754,5 mil).
Já em Aquiraz, o montante declarado para apresentações chega a R$ 6,2 milhões. A grade de atrações inclui o DJ Alok (R$ 950 mil) e a dupla Zé Neto & Cristiano (R$ 954 mil), evidenciando que a competição entre as prefeituras pelo “maior Carnaval” tem custado caro aos cofres públicos.

O ponto mais crítico da análise surge quando os gastos de poucos dias de festa são comparados ao planejamento anual das cidades. Em Paracuru, o investimento apenas no Carnaval 2026 representa quatro vezes mais do que todo o orçamento anual da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (R$ 1,9 milhão).

A disparidade atinge a zeladoria da cidade. Com um orçamento anual de infraestrutura estimado em R$ 12,3 milhões, Paracuru gastará em cinco dias de shows o equivalente a 63% de todo o recurso que deveria durar 12 meses para pavimentação, drenagem e manutenção urbana.
“O tema reacende o debate sobre prioridades. Na prática, 2/3 do que seria usado em obras e manutenção da cidade durante o ano inteiro está sendo consumido em cachês artísticos em menos de uma semana,” destaca a análise dos dados fiscais.
Os dados são baseados nas declarações das próprias prefeituras ao sistema do TCE-CE. O tribunal utiliza essas informações para monitorar possíveis irregularidades e garantir que o princípio da razoabilidade não seja ferido em detrimento de serviços básicos como saúde e educação.
Aracati, conhecido por realizar um dos maiores Carnavais do Ceará, mantém o padrão de investimentos milionários para 2026. Seguindo a linha dos dados do portal Carnaval Transparente e informações oficiais da prefeitura, o município projeta um impacto econômico gigantesco, mas também gera polêmica pelo valor dos cachês.
Aqui estão os dados específicos para Aracati em 2026:
A prefeitura projeta uma movimentação de mais de R$ 340 milhões na economia local (um crescimento de até 15% em relação ao ano anterior).
Cerca de 400 mil pessoas são esperadas durante os dias de folia.
Embora o valor total consolidado no portal do TCE-CE seja atualizado conforme os contratos são alimentados, em anos anteriores a festa custou cerca de R$ 17 a R$ 18 milhões. Para 2026, com o aumento de 10% a 15% nas projeções, o custo operacional e artístico deve superar essa marca.

Aracati aposta em uma grade com mais de 50 atrações. Alguns dos valores que já circulam ou foram alvo de fiscalização incluem:

  • Léo Santana: O cachê anunciado gira em torno de R$ 1,5 milhão, sendo a atração mais cara do evento.
  • Daniela Mercury: Valor estimado entre R$ 500 mil e R$ 700 mil (baseado em contratações similares).
  • Vintage Culture: Atração de destaque no cenário eletrônico, com cachês que costumam superar os R$ 600 mil em eventos de grande porte.
  • Melody e Taty Girl: Também figuram na grade principal com investimentos de centenas de milhares de reais.

Assim como em Paracuru, o debate em Aracati se concentra na proporcionalidade.
A gestão defende que o gasto é, na verdade, um investimento, pois o retorno de R$ 340 milhões em comércio, hotéis e serviços compensaria o gasto público.
Oposição e órgãos de controle questionam se parte desses milhões não deveria ser aplicada na recuperação de vias urbanas ou no sistema de saúde municipal, que atende à população nos outros 360 dias do ano.

“Diferente de municípios menores, Aracati utiliza o argumento da indústria do turismo para justificar o desembolso. No entanto, o cachê de R$ 1,5 milhão para uma única atração (Léo Santana) coloca o município no radar do Ministério Público, que monitora se o gasto compromete o equilíbrio das contas públicas.”

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